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REPORTAGEM EXCLUSIVA: Familiares e amigo de jovem que faleceu após ação da PM falam com a redação do AGITO MAIS

Parentes deram suas versões dos fatos e contam como o jovem era

28/04/2022 às 12h20 Atualizada em 29/04/2022 às 13h12
Por: Jornalismo AgitoMais
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Reportagem do AGITO MAIS esteve com família de Vinicius e clama por justiça. (Foto: Agito Mais)
Reportagem do AGITO MAIS esteve com família de Vinicius e clama por justiça. (Foto: Agito Mais)

Seria mais um dia comum na vida do jovem de 31 anos, Vinícius Guimarães de Melo, de sua esposa e seus familiares. 

Mas a noite do dia 8 de março ficará para sempre marcada na vida desta família.

 

Familiares que estavam no local relatam como tudo aconteceu

 

Por volta das 22h, Vinicius, que já fazia trabalho de recuperação para dependentes, chegou em casa muito alterado, segundo relatos da sua esposa, Michele Aparecida Silva, de 30 anos. Ele apresentava alucinações, afirmando que alguém queria fazer mal à filha do casal, de apenas 6 anos. 

De acordo com Michele, enquanto jantava, estava assistindo a um filme que mostrava cenas em que uma pessoa agrediu sexualmente uma criança, e acredita que essa situação, somada ao uso de drogas que o marido havia feito, desencadeou o episódio de alucinações. 

 

“Nesse momento ele quebrou um prato, foi até a janela e ele mesmo começou a gritar para chamarem a polícia, dizendo que quem tivesse feito isso com a filha dele, iria pagar”. 

 

Segundo Michele, os vizinhos devem ter escutado os gritos do marido, e como ele estava muito nervoso, ela se assustou e saiu correndo em direção a casa da avó, com as filhas nos braços. Vinicius, ainda tendo alucinações, correu atrás de Michele. Nesse momento, ele começou a segurá-la, mas não dizia nada contra ela. “Ele estava agitado, alterado, mas em nenhum momento ele gritava para mim. Ele gritava que quem tivesse feito com a filha dele, iria pagar”. 

 

Nesse momento, o irmão de Michele chegou e segurou Vinicius para controlá-lo, onde os dois caíram no chão. Em seguida, os dois se levantaram e Vinicius se dirigiu até a própria casa, e Michele, ainda assustada e com a filha pequena, foi para a casa do irmão. 

Ela ainda relata que tanto ela, o irmão e alguns vizinhos, que estavam em frente a residência, ouviram barulho de coisas quebrando, momento em que Vinicius, ainda em surto, saiu correndo sem roupas. 

 

“A polícia disse que ele estava com uma faca, mas era impossível. Onde ele esconderia uma faca se ele estava sem roupa? Ninguém viu faca nenhuma. Inclusive essa faca nunca foi achada. E ele continuava falando que ‘iriam pagar. Não era nada contra mim’”, relata a esposa. 

 

Ela afirma que a polícia chegou, e ele estava no terreiro da casa, sentado no chão. A esposa descreve que ele estava em uma posição semelhante a um Buda.

 

Segundo outros relatos, assim que avistou os policiais, Vinicius levantou e foi em direção a eles, quando tomou um chute no peito e caiu no chão. Para quem estava no local, a polícia alegou novamente que ele estava portando uma faca, versão refutada por presentes, que disseram que não havia nada na mão de Vinicius, ainda sem roupas.

 

Mãe e irmão contam sobre o dia e o sentimento após a perda 

 

Diante dos fatos que estavam ocorrendo naquela noite, um primo de Vinicius decidiu correr até a residência dos pais, imaginando que a presença da mãe pudesse acalmar a situação, tanto do jovem quanto por parte dos policiais. 

 

O irmão de Vinicius, Felipe Guimarães de Melo contou que o primo não pôde entrar na residência por resistência de dois policiais que estavam na porta. 

 

“Ele veio buscar a minha mãe. Pensou que, com a minha mãe, ele poderia acalmar, pois estava se debatendo no chão. Mas eles não deixaram ele entrar. Eles estavam com cassetetes na mão e não deixavam ele entrar. Foi aí que ele começou a gritar pra minha mãe: “vão matar o ́"Batoré" de tanta pancada”.

 

A mãe ouviu os gritos do rapaz e conseguiu correr até o local. No dia dos fatos, é possível ver em vídeos que foram compartilhados nas redes sociais, a mãe de Vinícius gritando muito, pedindo para que parassem as agressões. 

 

Marli Guimarães de Melo, de 63 anos, conta como foi encontrar o filho no local.

 

“Quando vi, ele já estava todo sujo de barro. Carregaram ele até a viatura e jogaram como se fosse um porco. Eles falam que ele morreu no hospital, mas eu tenho certeza que ele já estava morto ali. Ele não se mexia, estava todo mole, e atiraram meu filho dentro do porta malas”. 

 

Marli foi até a UPA e conseguiu ver o corpo de Vinicius. Ela refuta a declaração da polícia militar à época e matérias jornalísticas sobre a causa da morte. Além disso, segundo atestado de óbito obtido com exclusividade pelo AGITO MAIS, a causa da morte de Vinicius foi “traumatismo crânio encefálico, politraumatismo e possível uso de drogas (aguardando exames)”. A polícia civil ainda não emitiu o laudo da autópsia. 

 

“O rosto dele estava desfigurado, todo sujo de sangue e barro, o dente estava todo vermelho de sangue. Como ele pode ter morrido de parada cardíaca ou respiratória? Ele não estaria todo ensanguentado, sujo de barro, todo machucado”. 

 

A mãe disse ainda que, a partir desse dia, sua vida acabou. A dona de casa relatou que nem rezar ela consegue mais, e não consegue perdoar as pessoas que ela diz serem as responsáveis pela morte do filho. 

 

 “Vinicius era trabalhador, ele não era igual eu, porque eu não perdoo. Se ele tivesse sobrevivido, e um desses precisasse, ele ajudaria. Como que mata uma pessoa dessa? Tem horas que parece que estou ficando louca, e eles também vão acabar loucos, pelo mal que eles me fizeram”. 

 

Marli desabafou ainda que recebeu um péssimo tratamento por parte dos policiais. 

“Todos olharam pra mim, apontei para um por um e falei: o que vocês fizeram com meu filho, não vão fazer com os seus. Mas se alguém fizer, vocês vão sentir o que é rasgar o coração de uma mãe”. Após isso, ela relata que os policiais desferiram “palavrões”.

 

Após a ida à UPA para ver o corpo do filho, Marli voltou ao local dos fatos, e um policial se aproximou e pediu desculpas, dizendo que “não faz parte da corporação esse tratamento”.

 

Marli relatou que naquele momento, desabafou para que os militares ouvissem. 

 

“O respeito que eu tinha pela profissão de vocês, que eu rezava para vocês, agora não tenho. Vocês não tiveram compaixão com meu filho. Ele morreu como se fosse um porco que vai para o abate. Não pensaram no ser humano que estava ali. Foram 6 contra um, que já estava algemado. Vocês vão chegar em casa e ver o filho de vocês. Eu não. A minha neta não vai ver mais o pai”. 

 

Tanto Marli quanto o pai de Vinícius, o senhor Antônio Carlos de Melo, de 63 anos, afirmaram que a única coisa que gostariam era que a imagem do filho, que foi descrita em outros portais como de apenas um viciado que estava agredindo a esposa, fosse limpa, em memória dele, e clamam por justiça.

 

“Vinicius era trabalhador. Na enchente, ajudou muitas pessoas, organizava pessoas para ir para a rua trabalhar, como caridade, sem cobrar nada. Era apaixonado pela família. Tinha problemas com drogas, mas nunca recusou ajuda, e hoje não tem mais, porque tiraram nosso filho de nós. Não tiveram compaixão e dizem que morreu de parada cardíaca. Como, se ele estava todo sujo, ensanguentado? O atestado de óbito diz outra coisa. Queremos que os culpados paguem, mesmo que isso não traga ele de volta”. 

 

Esposa fala sobre a convivência com Vinicius e a falta do companheiro 

 

Michele Aparecida Silva, de 30 anos, é assessora parlamentar e conta que ela e Vinícius estavam juntos há 12 anos, e o fruto disso era uma filhinha de 6 anos. 

 

“O Vinicius tinha esse problema com as drogas, mas ele era uma pessoa ótima. Não tinha quem não gostasse dele. Ele era presente, era um excelente pai. Sabe a culpa que eu carrego? Talvez, se eu não estivesse lá, não teria acontecido isso. Na segunda-feira, ele até me levou no trabalho, falou que ia fazer jantar. Mas ele teve recaída”.

 

Ela fala sobre a convivência de 12 anos e tudo que foi interrompido após o dia 7. 

 

“Vinicius era uma pessoa maravilhosa como esposo, pai, filho e amigo. Se mostrou um pai dedicado e amoroso. Quantas coisas maravilhosas vivemos juntos nesta vida.

Meu primeiro amor; 12 anos juntos, a pessoa que eu podia contar para tudo ,sempre esteve ao meu lado, me sentia segura ao lado dele.

Tínhamos brigas como qualquer outro casal ,mas a gente era muito feliz juntos . Ele me ensinou tanta coisa. Como eu aprendi e cresci como mulher ao lado dele.

Onde ele passava, deixava alegria. Era extrovertido,  brincalhão, trabalhador, esforçado, nunca e desistiu da sobriedade.

Tínhamos tantos sonhos planos juntos. Sempre fez de tudo por sua família, nunca nos deixou faltar nada. Nos amou e protegeu, até o fim. Se pudesse voltar atrás, faria tudo de novo, prometeria mais uma vez amor eterno e lutaria todos os dias por ele, como sempre fiz  e estive com ele até o fim”.

 

Michele conta também sobre a filha do casal, de apenas 6 anos, e a falta que sente do pai. 

 

“Na primeira semana ela perguntou muito, porque Papai do céu tinha levado o pai dela. Perguntava se ele ia levar na escola, que horas ia chegar. Ele era um pai muito presente e protetor. Tanto que surtou achando que estavam fazendo mal a ela", finalizou a esposa.

 

 

 

Padrinho de Vinicius para tratamento de dependência fala sobre o amigo

 

O coordenador de projetos sociais, Danilo Donato, de 33 anos, também falou para a reportagem sobre Vinicius e o tratamento que ele fazia contra as drogas. 

 

“Nesse final, ele passou a ter alucinações. Mas ele mesmo dizia que precisava parar, que estava ficando mais grave, que ele estava surtando. E os surtos dele eram sempre relacionados a preocupação com família, com a filha, a esposa, igual no dia, que achou que queriam fazer mal para a filha. O Vinicius sempre foi uma pessoa família. Por mais que ele usasse drogas, que tivesse essas recaídas, ele nunca ficou fora de casa”. 

 

O padrinho explica como foram as últimas recaídas de Vinicius com as drogas. 

 

“Ele não foi sempre assim, com esses estágios de delírios. No final dele é que  apresentou. Na terça-feira que ele morreu, eu estive com ele. Cheguei a falar que ele iria no grupo comigo, naquele dia. Ele sempre me respeitou muito, poderia estar “no uso”, em qualquer situação, ele me respeitava. O Vinicius nunca recusou ajuda, mas ele teve intervalos de recaída. Ele voltava para a recuperação rápido, ele mesmo procurava. Mesmo com poucas forças, ele procurava voltar para a recuperação. 

 

Familiares não aceitaram que Vinícius fosse enterrado com laudo da Upa

 

A mãe de Vinicius relatou para nossa redação que não aceitou que o corpo do filho fosse enterrado com o laudo expedido pela UPA. 

 

"Eu gritei: não vão enterrar meu filho com este laudo. Vão enterrar meu filho se vier um perito de fora. Se enterrar com o laudo da UPA, vão ter que tirá-lo e fazer outro. Por isso o sepultamento dele durou apenas duas horas”.

 

Após isso, o corpo de Vinicius foi levado para o cemitério, onde um perito de fora foi chamado e realizou os exames, que confirmaram o politraumatismo e traumatismo craniano.

 

Atestado de óbito aponta como
causa da morte traumatismo
craniano, politraumatismo e
possível uso de drogas,
refutando a versão dos polícias,
de parada cardíaca.

Reportagens sobre os fatos

Os familiares de Vinicius reclamaram que, alguns portais da cidade fizeram matérias que não condizem com a realidade dos fatos, e que em nenhum momento a família foi procurada para dar a versão. “Dois portais falaram somente da forma que os policiais descreveram, e colocaram o Vinicius como um bandido, como se ele tivesse me agredido.

Um deles eu procurei, pedi para dar minha versão e ele alegou que não podia fazer isso”, relatou a esposa.

 

Michele ressaltou que, essa necessidade, de limpar a imagem do pai de sua filha e sobre o dia a fez procurar o veículo AGITO MAIS

 

“O que a gente quer é mostrar que o Vinicius não foi um monstro. Ele, em momento algum, me agrediu. Mas afirmaram que ele fez isso, sem ninguém me escutar. E quando pedi o direito de esclarecer, não me deram. Um disse que não podia. Outro, só ouviu a versão da polícia militar. O Vinicius era bom, e ele não pode ter essa imagem, de que me agredia, de que era violento. Infelizmente ele tinha uma doença, a dependência, mas em momento nenhum ele foi uma pessoa ruim”. 

 

Batalhão não respondeu à solicitação. Policiais já voltaram a atuar em Itabirito 

 

Após a ocorrência, os policiais que estiveram no local, segundo a família, foram transferidos para a cidade de Mariana, porém já estão atuando novamente em Itabirito.

 

Nossa reportagem entrou em contato, por meio de e-mail, enviado no dia 20 de abril, solicitando um posicionamento sobre as ações do dia 08 de abril, porém, sem sucesso.

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